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Bolsonaro e o “nazismo de esquerda”: o que se busca com a revisão do passado?


Por Emilio Meyer, Ana Carolina Rezende Oliveira e Felipe Guimarães

Ao sair da visita guiada ao Centro de Memória do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém, o presidente Bolsonaro assim se pronunciou: aquele que esquece o seu passado está condenado a não ter futuro”. Neste mesmo dia, o presidente ratificou a tese defendida também pelo Chanceler Ernesto Araújo de que o nazismo foi um movimento de esquerda, afirmando: “Sem dúvidas. É o Partido Nacional Socialista da Alemanha.”

A narrativa defendida pelo presidente e pelo chanceler brasileiros tem raízes em blogs e discursos de políticos de extrema-direita, especialmente nos Estados Unidos. Todavia, contrapõe-se frontalmente à historiografia mundial, inclusive às explicações apresentadas pelo próprio Centro de Memória.

O Yad Vashem expõe que a frustração do povo alemão com  o fracasso na Primeira Guerra, aliada a “alertas sobre a crescente ameaça do Comunismo, criaram solo fértil para o crescimento de grupos radicais de direita na Alemanha, gerando entidades como o Partido Nazista”.

Como mostraremos a seguir, essa leitura revisionista do passado, em uma forma de fuga da realidade, utiliza-se da desinformação para se afastar do regime totalitário, deslegitimar politicamente a oposição e confundir a pauta política.

A ascensão e a política nazista

Após a Primeira Guerra Mundial, as potências vencedoras estipularam sanções para a derrotada Alemanha, que foi obrigada a ceder territórios e reparar  os países vitoriosos. Essas determinações do pós-guerra geraram um profundo ressentimento na população alemã, possibilitando que receios nacionalistas fossem agravados e se materializassem em um pequeno partido bávaro, o “Partido dos Trabalhadores Alemães” (Deutsche Arbeiterpartei – DAP). Ele atraía camadas insatisfeitas da classe média regional, mas não possuía respaldo entre trabalhadores e população rural.

Para angariar esse apoio, a cúpula do partido – já liderada por Hitler – acrescentou o termo “socialista” ao seu nome, tornando-se Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei – NSDAP), também conhecido como o Partido Nazista.

Apesar de antagonizar com ideias socialistas que eram populares na Alemanha à época, Hitler entendia que colocar o termo no nome do partido poderia facilitar sua difusão. “Socialismo”, para o NSDAP, significaria apenas igualdade entre aqueles de “sangue alemão”, excluindo todos as minorias e outros grupos, como fizeram com os judeus.

Em 1923, após uma tentativa frustrada de golpe para derrubar o governo da Baviera, Hitler foi preso. Na prisão, escreveu Mein Kampf, livro no qual defende sua ideologia ultranacionalista, sustentando a utilização das estruturas da democracia alemã para tomar o poder e se definir como oposição total ao comunismo.

Na obra, o próprio Hitler rechaça a confusão entre o nazismo e o comunismo:

“A cor vermelha de nossos cartazes foi por nós escolhida, após reflexão exata e profunda, com o fito de excitar a esquerda, de revolta-la e induzi-la a frequentar nossas assembleias; isso tudo nem que fosse só para nos permitir entrar em contato e falar com essa gente.”

Nos anos seguintes, o Partido Nazista seguiu esse plano, inclusive atrelando o nacionalismo anti-semita de Hitler a uma retórica de garantias de direitos sociais, buscando ganhar apoio popular além da Baviera.

A crise de 1929 gerou profunda recessão na economia alemã, enfraquecendo os principais partidos e abrindo caminho para a ascensão eleitoral do Partido Nazista e do Partido Comunista. Visando fazer frente à ascensão comunista, os partidos tradicionais de direita fizeram uma coligação com o Partido Nazista, acreditando que conseguiriam controlá-lo após as eleições. Nos dizeres de Franz von Papen, um dos artífices do plano: “Dentro de dois meses, nós o teremos tão encurralado que ele irá guinchar.”¹

Desnecessário dizer o quanto estavam errados.

Os perigos do revisionismo histórico para a democracia

Se as evidências históricas são tão claras, por que, então, insistir neste debate aparentemente irracional?

Embora este discurso seja, às vezes, recebido com humor ou pouca importância devido a sua flagrante desconexão com a realidade, sua defesa por um presidente e um chanceler esconde nuances que merecem atenção.

As estratégias de desinformação foram uma característica marcante das eleições presidenciais de 2018 no Brasil e parecem ter se incorporado ao cotidiano de nossa política. Ainda que pouco plausíveis, as narrativas disseminadas têm objetivos que fazem parte de uma estratégia de obscurecer os fatos, seja para deslegitimar a oposição ou para confundir a pauta política.

Neste caso, há dois objetivos que se complementam:

  1. Distanciar a plataforma de direita defendida pelo presidente dos resultados nefastos de um regime totalitário, cujos crimes contra a humanidade são amplamente reconhecidos.  
  2. Ao mesmo tempo, atribuir  à oposição política esses resultados, acentuando o distanciamento entre “nós” – virtuosos – e “eles” – que inspiram medo e devem ser combatidos.  

Em How Fascism Works, Jason Stanley aborda o perigo da exploração da divisão entre “nós” e “eles”, que reside na política de desumanização de segmentos da população. Ao excluir certos grupos raciais, étnicos, religiosos ou ideológicos, essa política limita a capacidade de empatia entre os cidadãos, justificando tratamentos violentos, repressão de liberdades e, em casos extremos, extermínio em massa – a consequência última do próprio nazismo.

Além disso, há também o objetivo de confundir a pauta política, construindo uma política da irrealidade que inviabiliza o debate sobre questões importantes. Essa política tem como finalidade substituir fatos pelas manifestações de uma única pessoa ou partido, destruindo as bases comuns para compreensão de argumentos e construção de diálogo entre cidadãos.

Em uma democracia, o debate de ideias requer um conjunto de pressuposições básicas para que possa ser estabelecido. É a partir disto que se pode falar em dissenso racional. Quando se substitui o dissenso racional por medo, preconceito e frustração, não há mais uma base comum para a deliberação democrática.

Assim, ao substituir a historiografia pelas manifestações de uma única pessoa, a política de irrealidade visa gerar desconfiança, não só em face das instituições que teriam expertise para abordar o assunto, como também em face dos outros cidadãos – “eles” -, substituindo-os pela confiança em uma figura central. Se essa política for bem sucedida, o discurso do líder torna-se o único digno de confiança.²  

Portanto, o discurso aparentemente inócuo pode tomar contornos graves quando defendido por figuras de tamanha centralidade política. A adoção da irrealidade enquanto estratégia política apresenta-se como ameaça à democracia porque aprofunda a divisão entre “nós” e “eles” e impede o debate democrático de ideias, substituindo-o pela palavra de um líder supostamente infalível.  

Para mais informações, acesse os links abaixo:

 


1 LEVITSKY, Steven. ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2019, p. 18-19.

STANLEY, Jason. How Fascism Works: the politics of us and them. Nova Iorque: Random House, 2018. p. 55.

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