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A vitória de Biden apresenta de fato uma chance de renovação democrática?

A pandemia de Sars-CoV-2 que assolou o mundo em 2020 alterou as estruturas de diversas sociedades. Uma delas foram as seculares convenções partidárias estadunidenses. O Partido Democrata, em agosto, oficializou a candidatura de Joe Biden, ex-senador e vice de Barack Obama, à presidência e como vice Kamala Harris, ex-procuradora da Califórnia e senadora. Porém, ao contrário dos encontros com milhares de pessoas, dessa vez foi feita virtualmente, com o menor número de pessoas e em tempo mais curto.

Desde então, iniciou-se a ferrenha disputa para quem chegaria à Casa Branca, a qual ficou dividida entre Biden e o atual presidente, que tentava a reeleição pelo Partido Republicano, Donald Trump. Depois de muitas acusações de ambos os lados, o ex-vice-presidente obteve os delegados da maioria dos famosos “estados pêndulos” – como Michigan, Pensilvânia e Wisconsin -, que são imprevisíveis sobre qual partido apoiará em cada eleição.

Além do mais, este ano foi considerado um pleito de recordes. Como não é obrigatório o voto nos Estados Unidos (EUA), obteve-se o maior comparecimento da história, mesmo em meio a uma pandemia. E, como é possível o voto antecipado, as eleições tiveram o maior número de votos nessa modalidade – com 101 milhões de votos pelo correio.

Em seus discursos, Biden dizia ser preciso unir o país para vencer a atual crise econômica e sanitária, além dos outros problemas comuns, como os do sistema de saúde, do racismo e das relações exteriores depois da escalada da extrema direita com a qual Trump contribuiu. Com isso, será Joe Biden, com seus 78 anos, de família abastada e branca e político de longa data, o presidente da renovação democrática americana?

“Vocês sabem quem eu sou, vocês sabem quem ele é. Vocês sabem do caráter dele, vocês sabem do meu caráter”

Joseph Robinette Biden nasceu em 20 de novembro de 1942, em Scranton, Pensilvânia. Ele cresceu em uma família católica e durante a infância descobriu que era gago, algo que tratou durante muitos anos. Biden começa a estudar na Universidade de Delaware e depois faz Direito na Universidade de Syracuse, onde conhece sua primeira esposa, Neila. Depois de formado, ele entra no Partido Democrata e se torna rapidamente a segunda pessoa mais jovem a entrar no Senado americano, com apenas 29 anos.

No início da carreira como senador, Biden tem sua primeira grande perda: em um acidente de carro, por mais que os dois filhos tenham sobrevivido, a esposa e filha não resistem. Assim, em discursos afirma diversas vezes como tal evento o marcou e definiu sua atuação frente ao poder público. Com o tempo ele se casa novamente, teve seis mandatos consecutivos como senador e se candidata algumas vezes à presidência, até que em 2008 se torna vice do presidente Barack Obama por dois mandatos.

Durante a corrida eleitoral de 2020, o rival, Donald Trump, alegava muitas vezes que Joe Biden era considerado um radical de esquerda que traria o socialismo para América. Contudo, em seus mais de 30 anos de vida política, Biden está muito longe desse devaneio republicano. O candidato democrata é considerado, assim como sua vice, um moderado, muitas vezes sendo um centrista frente aos colegas de Partido. Tal representação pode ser vista em suas decisões como senador e vice, cargos que precisam de muita articulação política.

Com vistas a se candidatar à presidência, já tomou medidas polêmicas. No governo de G.W. Bush, deu apoio à Guerra do Iraque e em 1994 propôs um projeto de lei que aumenta as sentenças mínimas, forte impulsionador da população carcerária. Ademais, foi acusado  de plagiar discursos, pelo que pediu desculpas, e de assédio sexual, que ele nega. Estas foram o estopim para se unir com Kamala Harris, pois além de neutralizar as acusações de assédio, por ser negra e filha de imigrantes, representa a mudança demográfica que os EUA vivenciam – decisiva para ganhar em Nevada e intensificar a campanha no Texas.

A Política Externa: O Desafio

A importância desta eleição e sua polarização foram para além da disputa entre direita e esquerda ou conservadores e progressistas. Há um problema de localização política mundial, e isso está mais claro agora nesta pandemia. O crescimento da influência da China, sobretudo através da Nova Rota da Seda, que ampliou sua força nas relações políticas no mundo têm abalado a hegemonia estadunidense.

A proposta de Donald Trump durante seus quatro anos de governo pode ser resumida no seu slogan “América Primeiro”. Baseou-se em tentar retomar o desenvolvimento industrial e a criação de empregos no país, aliado a novos acordos comerciais que passassem a privilegiar a produção nacional, e acabar com o que ele chamava de “guerras sem fim”, como as guerras no Oriente Médio.

Este ponto talvez seja a principal diferença entre os Democratas e os Republicanos nestas eleições. Em comparação a gestão Obama, Donald Trump foi um presidente menos belicista, chegando a não se envolver em nenhum conflito bélico e também prometendo a retirada das tropas do Iraque. Em compensação, durante os governos Obama foram pelo menos 26 mil bombardeios em 7 países.

Outra questão importante na relação de política externa é a alteração no “tom”. Biden deve se aproximar dos países da Europa Ocidental, refazer suas antigas alianças e reforçar o multilateralismo. Instituições como a ONU, OMS, OTAN, devem voltar a ser protagonistas neste período e mediadoras dos possíveis conflitos que poderão existir entre Washington e Pequim.

E o desafio será grande. Neste domingo (15/11) foi criado o maior bloco de cooperação comercial do mundo, a Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP, na sigla em inglês). Ele será formado por quinze países da Ásia/Pacífico, sendo China, Japão, Coréia do Sul, países membros da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Brunei, Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Myanmar, Filipinas, Singapura, Tailândia, Vietnã), e ainda Austrália e Nova Zelândia. A ausência dos EUA nesta relação comercial do pacífico, fortalece ainda mais a China como principal liderança política desse bloco.

“Build Back Better”

O governo de Donald Trump formulou uma crise democrática nunca vista antes no cenário político estadunidense. Com isso, a eleição do candidato Democrata se tornou um apelo por todos aqueles que vão contra os retrocessos trazidos pelo candidato Republicano. Ademais, quando somadas a crise consequente da pandemia da Covid-19 e a crise de 2008 se torna possível observar que a política estadunidense falha em intervir e garantir direitos socioeconômicos visando o bem-estar de todos os cidadãos.

A pífia atuação estadunidense em meio a pandemia demonstrou que através do seguro privado não se garante o direito à saúde para toda a população. Tendo em vista que diversos pacientes não possuíam plano privado e tinham medo das altas dívidas geradas pelos custos hospitalares, diversos casos da Covid-19 foram relatados com atrasos, fato que pode ter aumentada a mortalidade da doença.

Visando garantir uma ampliação deste direito, o ex-presidente Barack Obama formulou, ainda em 2010, o Projeto Obamacare, que tem como objetivo garantir o seguro saúde a 97% dos cidadãos norte-americanos. Entretanto, o presidente Donald Trump negligenciou esse projeto e tenta incluí-lo na Justiça. Com isso, Joe Biden, visando garantir um maior acesso à saúde, coloca em sua proposta uma maior atenção e ampliação desse projeto.

A evolução em medidas de bem-estar não está restrita apenas à área da saúde. Diferente de seu antecessor e opositor, Biden propõe uma expansão da educação gratuita e o término das absurdas políticas contra imigrantes. Ademais, a comunidade internacional tem expectativa de que o próximo presidente volte ao Acordo de Paris, o qual visa a redução de emissão de gases estufa e que foi excluído dos planos de Trump.

Desse modo, é possível perceber que Joseph Biden baseia sua proposta em uma maior acessibilidade aos direitos sociais, econômicos e culturais, o que diverge bastante da atuação do atual governo. Entretanto, como diversas campanhas eleitorais se diferem das condutas praticadas em governança, só será possível afirmar que Biden representa uma renovação democrática quando suas propostas se tornarem – ou não – medidas reais.

O dia da eleição de Biden: as ruas dos Estados Unidos em festa. Foto: Gayatri Malhotra

Biden enfrentará um país extremamente dividido ideologicamente, em plena crise sanitária com o maior número de mortos por Coronavírus no mundo e em crise econômica. Ademais, se ele possuir a pretensão de ficar oito anos na presidência, será essencial lidar melhor com os questões internas estruturais, como a crise econômica no Cinturão da Ferrugem, e a transição demográfica no Cinturão do Sol, onde brancos caminham para serem minorias numéricas.

Desde solo brasileiro, somam-se às questões internas dos EUA – os debates em busca de melhorias no bem-estar social da população estadunidense, redução das desigualdades econômicas e a luta contra o racismo, por exemplo -, também a preocupação com a política externa. Como mencionado, enfrentamos grandes giros nos eixos de poder globais, com o fortalecimento da China. Além disso, com o governo Trump, a referência de governo de “homens fortes” tornava-se também prestigiada nos países, como o Brasil, mais influenciados pelos EUA. Resta saber, portanto, se tanto interna, quanto externamente,  poderá se dizer da existência de uma renovação democrática, e não uma votação por ser contra Donald Trump apenas.

Por João Victor dos Reis Leandro [1], Henrique Reis Barbosa de Oliveira [2] e Philippe Silva [3].

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[1] Graduando em Direito pela UFMG. Extensionista do Centro de Estudo sobre Justiça de Transição (CJT/UFMG);

[2] Graduando em Direito pela UFMG. Extensionista do Centro de Estudo sobre Justiça de Transição (CJT/UFMG);

[3] Mestre e bacharel em Direito pela UFMG. Pesquisador voluntário do Centro de Estudo sobre Justiça de Transição (CJT/UFMG).

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