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A corrida pela vacinação contra a Covid-19 no Brasil: Como as fake news e o descaso do governo podem influenciar na imunização?

“A vacina mais esperada da história”. É assim que muitas pessoas e instituições midiáticas se referiam ao imunizante capaz de barrar a propagação do novo coronavírus.  Desde dezembro de 2019, quando o primeiro caso de covid-19 foi diagnosticado na península chinesa de Wuhan, mais de 100 milhões de pessoas no mundo todo foram contaminadas e 2,2 milhões perderam a vida vítimas desta doença. Consequentemente, cientistas, políticos e líderes de diferentes países travaram uma verdadeira corrida pela imunização, o que acarretou uma visibilidade nunca antes percebida no processo de produção de vacinas.

Nesse sentido, em janeiro de 2020, antes mesmo de a doença ultrapassar as fronteiras nacionais e a OMS declarar que o mundo enfrentava uma pandemia de covid-19, os pesquisadores chineses já haviam divulgado o sequenciamento genômico do coronavírus. Isso proporcionou que cientistas de outros países – muitos dos quais o vírus sequer havia chegado – começassem a estudar o genoma do vírus e que as buscas pela imunização fossem iniciadas. Para mais, tendo em vista o impacto negativo da pandemia, investimentos bilionários em pesquisas foram realizados, milhares de voluntários se disponibilizaram para os testes clínicos e mais de 150 vacinas foram testadas no mundo todo. Todos esses fatores, aliados ao senso de urgência que aceleram o processo burocrático, fizeram que com que a primeira vacina contra o novo coronavírus – a da Pfizer/BioNTech – fosse aprovada e começasse a ser produzida em menos de 11 meses, um tempo recorde na produção desses imunizantes, cujo processo normal de desenvolvimento costuma demorar entre 10 e 15 anos.

A partir disso, a aplicação da vacina desenvolvida pela Pfizer/BioNTech começou a ser realizada no Reino Unido ainda no início de dezembro de 2020, com cerca de 10 milhões de doses direcionadas a profissionais de saúde e idosos acima de 80 anos. Além dela, quatro outras vacinas – Moderna, Sputnik V, Oxford/AstraZeneca e Coronavac – foram aprovadas por agências sanitárias nacionais e estão sendo usadas na população. No Brasil, a primeira pessoa a ser vacinada foi a enfermeira Mônica Calazans, que recebeu uma dose do imunizante produzido pela Coronavac no dia 17 de janeiro de 2021. Duas semanas depois, em 31 de janeiro, de acordo com o projeto “Our World in Data”, mais de 94 milhões de pessoas já tinham sido imunizadas contra a covid-19 no mundo todo. Destas, 2,07 milhões estão no Brasil, o que corresponde a cerca de 1% da população do país.

O plano de imunização proposto pelo Ministério da Saúde do Brasil, apresentado em dezembro de 2020, prevê que todo o grupo de risco da doença – aproximadamente 50 milhões de pessoas – seja vacinado no primeiro semestre de 2021. O restante da população deverá ser vacinado em até 16 meses. Ao longo deste ano, espera-se que o governo federal adquira 350 milhões de doses da vacina contra o coronavírus para disponibilizar à população brasileira. Entretanto, apesar dos esforços de cientistas e autoridades para incentivar a vacinação e combater a crise sanitária provocada pela covid-19, muitas pessoas ainda apresentam uma hesitação quanto à vacina que combate o novo coronavírus.

Relutância à vacinação por parte dos brasileiros: por que acontece e como pode afetar a cobertura vacinal da COVID-19?

As vacinas da China e da Índia – Coronavac e Oxford/AstraZeneca – chegaram ao Brasil e a campanha de vacinação já teve início. Mas apesar da nova esperança que a vacina da COVID-19 deu ao mundo e aos brasileiros, ainda é considerável o grupo de pessoas que se recusam a vacinar. Segundo pesquisa do DataFolha realizada nos dias 20 e 21 de janeiro, 79% dos brasileiros entrevistados querem se imunizar. Esse número diminuiu em relação a agosto, quando foi constatado que 89% dos brasileiros tinham intenção de se vacinar. Por que uma parcela da população se recusa a tomar a vacina?

Essa rejeição à vacina está acontecendo devido em grande parte à influência da mentalidade antivacina. Apesar de não existir um movimento antivacina organizado no Brasil, a cobertura vacinal tem caído de forma preocupante nos últimos anos. É de se esperar que essa relutância em relação à vacinação abranja também a vacina da COVID-19.

Um dos problemas mais preocupantes que prejudicam a cobertura vacinal do coronavírus é a desinformação e disseminação de fake news por grupos antivacina. A internet  permite o compartilhamento rápido de vários tipos de informações em escala mundial, sem exigir comprovação científica para publicação, o que possibilita a postagem de informações falsas por qualquer um e de forma ilimitada.

Socorro Gross, representante da OMS no Brasil, destacou que os grupos antivacina com fake news serão um desafio para o enfrentamento da pandemia. Essa constatação é clara quando se leva em conta a quantidade de fake news às quais os internautas estão expostos e a disposição dos usuários da internet a acreditarem nessas informações falsas.

Uma pesquisa avaliou 2.276 publicações da internet relacionadas à COVID-19 de dezenas de países e concluiu que apenas 9% dessas publicações eram verdadeiras. Muitos sites confiáveis divulgaram a verdade sobre as fake news que estavam circulando pela internet, mas ainda assim, essas informações ainda são muito disseminadas em velocidades e quantidades assustadoras: aumentou em 383% a quantidade de fake news em grupos antivacina nas rede sociais em 2020.

Também, são muitos os brasileiros que acreditam nessas informações falsas disseminadas, o IBOPE fez uma pesquisa em setembro de 2020 em que foram expostas 10 afirmações incorretas sobre vacinas, e 67% dos brasileiros entrevistados acreditaram em ao menos 1 delas. Assim, é compreensível o porquê de o número de brasileiros que têm intenção de serem vacinados continua indesejável.

Além disso, não ajuda que o próprio Presidente da República vem fazendo comentários que fortalecem grupos que são contra a vacinação. O chefe do Executivo já fez declarações dizendo que “ninguém é obrigado a tomar vacina” e fez críticas aos efeitos colaterais da vacina da Pfizer, sugerindo de forma sarcástica que se alguém tomasse essa vacina poderia virar jacaré. Tais comentários do presidente causaram repercussões em grupos antivacina brasileiros,o que colaborou para prejudicar a campanha a favor da vacinação contra o vírus que causou a morte de mais de 220 mil pessoas no Brasil.

Em relação à fala de Bolsonaro da obrigatoriedade da vacina, a Sociedade Brasileira de Imunização (SBIm) publicou uma nota ressaltando que as autoridades públicas devem conscientizar a população à respeito da importância da vacinação e que é dever de cada cidadão buscar a vacinação como proteção não só individual como coletiva também. Afinal, a vacinação é questão de saúde pública e sua falta afeta a todos, tanto os não vacinados quanto os vacinados.

É válido ressaltar a importância de vacinar o maior número possível de brasileiros. Como a vacina não é 100% eficaz é importante atingir uma boa cobertura vacinal para atingir a imunidade coletiva necessária. Assim uma pessoa vacinada tem menos chances de se infectar e de contaminar os outros e acaba protegendo, também, pessoas que não puderam se vacinar ou nas quais a vacina não teve efeito.

E a atuação do governo federal?

Desde o início da pandemia no país, o presidente Jair Bolsonaro minimiza a gravidade da crise sanitária e econômica, desestimula a adoção de máscaras e do distanciamento social, incentiva a desinformação ao divulgar mentiras e factoides, questiona a eficácia de vacinas comprovadamente eficientes e se mostra insensível à dor de milhões de brasileiros afetados pela doença. A ideia de saúde coletiva, protegida pela Constituição de 1988 e essencial para o sucesso da campanha de imunização – visto que a vacina é, antes de tudo, uma medida de proteção coletiva – é diariamente erodida pelo presidente. A conclusão a que se chega é a de que, desde o começo da pandemia, o governo federal se empenhou em uma verdadeira campanha pela disseminação do vírus. O comportamento irresponsável de Bolsonaro e de seus ministros, portanto, representa também um enorme entrave para o sucesso da campanha de vacinação no Brasil. 

Os ataques da família Bolsonaro à China, por exemplo, cobram o seu preço no momento em que a parceria entre os dois países é crucial para a produção de doses da vacina Coronavac, desenvolvida pelo Instituto Butantan junto com a farmacêutica chinesa Sinovac. No dia 26 de janeiro de 2021, o governo de São Paulo anunciou a vinda de ingredientes necessários para a produção da Coronavac após dias de incerteza em relação à chegada de tais insumos. Tal demora, apesar de ocorrer principalmente por motivos burocráticos, também se deve ao mal-estar entre os dois países provocado pelos comentários hostis do deputado federal Eduardo Bolsonaro e do chanceler Ernesto Araújo em relação ao governo chinês.

Enfermeira Monica Calazans recebe a primeira dose da vacina contra o Covid-19. Foto: Governo de São Paulo.

Já a campanha de vacinação brasileira, ainda incipiente, sofre com a lentidão e com a desarticulação do Ministério da Saúde. Segundo o banco de dados Our World Data, o país imuniza, em média, 120 mil brasileiros por dia contra o novo coronavírus, uma quantidade insuficiente que demandaria anos até a totalidade da população, composta por mais de 212 milhões de pessoas, ser vacinada. Importante lembrar, contudo, que o Brasil dispõe de estrutura para imunizar rapidamente um grande contingente de seus habitantes devido ao Programa Nacional de Imunização (PNI), implantado na década de 1970 e responsável pela erradicação de doenças como tétano neonatal e rubéola. Entretanto, a desarticulação do Ministério da Saúde mina a eficiência da campanha de vacinação brasileira ao recusar propostas de farmacêuticas para a compra de imunizantes e até mesmo ao demorar dias para adquirir novas doses da vacina Coronavac, gerando um cenário de incerteza que agrava a crise sanitária, social e econômica vivenciada pelo país. Não à toa, segundo o centro de estudos australiano Lowy Institute, o Brasil está na última posição no ranking que avalia o desempenho de quase 100 países no combate à pandemia.

Por Julia Ester de Paula  [1], Lucas Perrone Camilo [2] e Ester Wagner Siqueira  [3].

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[1] Doutoranda em Comunicação Social pela UFMG. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Mídia e Esfera Pública (EME/UFMG) e do Centro de Estudos sobre Justiça de Transição (CJT/UFMG). Voluntária no projeto de extensão “Como Ler Infográficos” (UFMG).

[2] Graduando em Direito pela UFMG e extensionista do Centro de Estudos sobre Justiça de Transição (CJT/UFMG).

[3] Graduanda em Direito pela UFMG e extensionista do Centro de Estudos sobre Justiça de Transição (CJT/UFMG).

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