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Para pensar a Justiça de Transição – Guia de documentários brasileiros

Este texto pretende ser um guia que procura destacar parte relevante de documentários brasileiros que nos auxiliam a pensar a justiça de transição no Brasil. Importante ressaltar que se trata de um recorte baseado em filmes de circulação não apenas circunscritos a festivais e mostras de cinema, mas também distribuídos no circuito de salas de exibição, plataformas digitais e canais de televisão. A lista abaixo conta com mais de 30  títulos e está dividida por conjuntos que abordam as questões agrária, indígena, quilombola e ditadura civil-militar, com ênfase em produções realizadas a partir da implementação da Lei da Comissão da Verdade, em 2011, e a abertura de arquivos da ditadura [1].

Contando com escolhas estéticas distintas na mobilização dos recursos expressivos que dispõe, parte destes documentários foi censurada e/ou negligenciada pela história. No entanto, são produções que merecem ser lembradas por permitirem ampliar os horizontes argumentativos na denúncia e no combate à violação sistemática de direitos humanos e à violência contra grupos sociais ou indivíduos que ocorreram no passado e continuam a ocorrer no país. Advertimos que este guia não pretende limitar o debate a estas produções apenas; pelo contrário, esperamos que esta lista sirva como ponto de partida para as discussões em torno do direito à memória e à verdade, dos processos que desencadeiam a erosão democrática, da necessidade de reparação histórica e dos diversos crimes contra sujeitos e comunidades tradicionais brasileiras.

O Golpe de 64 e a reforma agrária

Cabra marcado para morrer (1964/1984), de Eduardo Coutinho, é sem dúvida um documentário paradigmático para se pensar a ruptura do processo de reforma agrária no Brasil, do governo João Goulart (1961-1964), com o golpe civil-militar. O filme é motivado pela busca dos personagens que fizeram parte de um projeto de ficção sobre o líder camponês João Pedro Teixeira, assassinado numa emboscada. O filme seria encenado com a esposa de João Pedro, Elizabeth Teixeira, e filhos, vivendo seus próprios papéis, e outros camponeses da região, porém as filmagens foram interrompidas com o Golpe de 64. A equipe e parte dos atores precisaram se esconder e se dispersar. Elizabeth Teixeira, junto ao filho caçula, permaneceu na clandestinidade como Marta, por 17 anos, até Eduardo Coutinho reencontrá-la para realização do documentário. Do material filmado, restaram apenas algumas fotografias de cena e sequências que já haviam sido reveladas. Esse encontro de Coutinho com os personagens/atores, vítimas de perseguição e tortura, permitiu, na elaboração do trauma, aquilo que Patrícia Machado comenta sobre Cabra marcado para morrer como sendo “o primeiro documentário brasileiro exibido no país a trazer o testemunho de  tortura sofrida por um camponês, João Virgínio da Silva, que descreve em pormenores o que passou dentro de um quartel militar” (2015, p. 274-275).

Cartaz do filme Cabra marcado para morrer (1964/1984), de Eduardo Coutinho

Como desdobramento desse debate em torno da questão da terra, indicamos Tarumã (1975), de Aloysio Raulino, Guilherme Lisboa, Mario Kuperman e Romeu Quinto. O depoimento, breve e contundente, de uma trabalhadora rural discute “a educação e as condições de trabalho no campo, em que se revelam as raízes da exploração e a manutenção do contexto de penúria entre a população campesina”, como a sinopse nos informa. Considerando o período de transição da ditadura para a democracia no Brasil, destacamos os seguintes documentários: A Classe Roceira (1985-1986), de Berenice Mendes; Terra para Rose (1987), O Sonho de Rose – 10 Anos Depois (1997) e Fruto da Terra (2008), de Tetê Moraes, que correspondem à “Trilogia da Terra”; Quilombo Rio dos Macacos (2017), de Josias Pires; e, mais recentemente, Chão (2019), de Camila Freitas. São documentários que permitem uma discussão desde a primeira formação e conquistas do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) até as disputas atuais do movimento junto a instituições, empresas e agronegócio.

Racismo estrutural, expropriação e reparação histórica 

Para pensar a questão indígena, Serras da desordem (2006), de Andrea Tonacci, se torna também um filme paradigmático, pois expõe o conflito e as implicações do avanço do progresso com o massacre de indígenas. Sobrevivente de um ataque de fazendeiros, Carapirú passa a vagar sozinho, durante dez anos, pelas serras do Brasil central até ser encontrado em novembro de 1988, a dois mil quilômetros de seu ponto de partida. Levado a Brasília pelo sertanista Sydney Possuelo, seu caso se torna notório através da imprensa e, daí, parte-se em busca de sua origem e identidade. Outros dois filmes são também contundentes, Corumbiara (2009) e Martírio, de Vincent Carelli (2016). O primeiro traz questões em torno da gleba Corumbiara, no sul de Rondônia, que fora leiloada durante o governo militar, e que se tornara cenário de um massacre de indígenas isolados, em 1985. O segundo analisa detidamente a violência sofrida pelos Guarani Kaiowá, uma das maiores populações indígenas do Brasil nos dias atuais e que habita as terras do Centro-Oeste. Os Kaiowá são constantemente alvo de opressão, atacados pelas forças de repressão organizadas pelos latifundiários, pecuaristas e fazendeiros locais. Outros filmes tratam da questão dos indígenas isolados, como Piripkura (2018), de Mariana Oliva, Bruno Jorge e Renata Terra, tendo como personagens principais dois indígenas nômades que sobrevivem cercados por fazendas e madeireiros numa área protegida no meio da floresta amazônica.

No que compete à questão indígena ligada à ditadura militar, destacamos Reformatório Krenak (2016), de Rogério Corrêa, e Resplendor (2019), de Claudia Nunes e Erico Rassi, ambos sobre o reformatório, criado durante a ditadura militar, que funcionou de 1969 a 1972 como local oficial de prisão, tortura, trabalho escravo e violação de direitos dos indígenas. A criação de uma guarda rural composta de indígenas corroborou o processo de degradação da comunidade, além de corromper as características culturais dos Krenak ao transformar as vítimas em algozes de seus semelhantes. Como desdobramento deste tema, GRIN (2016), de Roney Freitas, Isael e Sueli Maxakali, traz os relatos dos indígenas sobre a violência sofrida no período da Guarda Rural Indígena, além de retomar a importante imagem da formatura da guarda, em que há o único registro documental do pau de arara –  ainda que de maneira simbólica, e não de uma sessão de tortura. Tal imagem retorna em diversos filmes posteriores à Comissão da Verdade, inclusive Martírio, acima mencionado.

Índio Cidadão (2014), de Rodriguarani Kaiowá e equipe, por sua vez, apresenta “o resgate histórico audiovisual da participação do movimento indígena na Assembleia Nacional Constituinte (1987-88) e entrevistas com memórias dos coordenadores da União das Nações Indígenas – Ailton Krenak e Álvaro Tukano – e de lideranças que participaram ativamente dessa mobilização como Davi Kopenawa, Mário Juruna, Moura Tukano, Paulo Paiakan, Pirakumã Yawalapiti e Raoni Metuktire. O momento marcante desse processo é a intervenção de Ailton Krenak no Plenário em defesa da emenda popular com a proposta de capítulo dos direitos dos Povos Indígenas”.[2]

Como debate em torno da necessidade de reparação histórica aos povos afrodiaspóricos, além do já citado Quilombo Rio dos Macacos, destacamos Abolição (1988), de Zózimo Bulbul, e Orí (1989), de Raquel Gerber em parceria com Beatriz Nascimento. Produzido durante o Centenário da Abolição da Escravatura, o documentário de Bulbul procura averiguar, social, histórica e culturalmente, a vida das pessoas negras no Brasil, reunindo declarações de importantes figuras públicas e de cidadãos brasileiros. Tendo a reflexão de Beatriz Nascimento como fio condutor, Orí procura um panorama social, político e cultural do país em busca de uma identidade que contemple as populações negras, mostrando a importância dos quilombos na formação da nacionalidade. A exceção e a regra (1997), do cineasta Joel Zito Araújo, merece igualmente destaque. O documentário expõe o tratamento dado pela justiça aos casos de denúncia de racismo no Brasil e relata a história de persistência de Vicente do Espírito Santo, técnico em eletrônica vítima de racismo na Eletrosul, empresa estatal onde trabalhava, que chegou vitorioso ao Tribunal Superior do Trabalho.

Quanto aos direitos LGBTQI+, ressaltando a participação do movimento LGBT na luta contra a repressão no período ditatorial,[3] indicamos Meu amigo Cláudia (2009), de Dácio Pinheiro. O documentário, ao render homenagem à artista travesti Claudia Wonder, expõe diversas frentes de debate que dão luz às lutas políticas LGBTs no período, com momentos importantes como a criação do SOMOS (Grupo de Afirmação Homossexual), colocando em evidência as perseguições policiais contra a comunidade LGBT durante a ditadura militar e as formas de resistência. São Paulo em Hi-Fi (2013), de Lufe Steffen, registra a noite LGBT entre as décadas de 1960 e 1980 como grande palco para reivindicações políticas. Dzi Croquettes (2009), de Tatiana Issa e Raphael Alvarez, é um documentário interessante porque mostra como as pessoas LGBT enfrentaram a ditadura militar com deboche, o corpo como arma no campo de batalha. Meu nome é Jacque (2016), de Angela Zoé, conta a história de vida de Jaqueline Rocha Côrtes, que teve participação política marcante para a comunidade trans e como soropositiva, tendo lutado para a efetivação, ampliação e divulgação das políticas públicas de tratamento e prevenção à AIDS se voluntariando no tratamento. Já o documentário Cássia Eller (2014), de Paulo Henrique Fontenelle, traz uma questão jurídica importante. Após a morte da cantora, a batalha judicial que seu pai lançou contra Maria Eugênia, companheira de Cássia Eller, pela guarda do neto trouxe para o debate público a necessidade de garantia de direitos para a comunidade LGBT. A vitória judicial que garantiu a tutela de Chicão à Maria Eugênia criou um precedente importante para as lutas políticas LGBTs, trazendo impacto para o reconhecimento da união estável entre casais homoafetivos.[4]

Abertura dos arquivos

A abertura dos arquivos da ditadura, através da instalação da Comissão Nacional da Verdade, permitiu que se tivesse acesso não apenas à documentação do regime militar brasileiro, como também a coleta de depoimentos dos sobreviventes que tiveram seus direitos violados[5] e de agentes do Estado implicados indireta e diretamente nos crimes de perseguição e tortura. Apontamos ao menos três documentários fundamentais para compreensão da importância da abertura dos arquivos e coleta desses depoimentos. O filme Retratos de Identificação (2014), de Anita Leandro, refere-se à prisão simultânea e tortura de três militantes, Antônio Roberto Espinosa, Maria Auxiliadora Lara Barcellos (Dôra) e Chael Schreier, dentre os quais apenas Espinosa se encontrava vivo e participa do documentário. Este conta também com o relato de outro militante da Ação Libertadora Nacional, Reinaldo Guarany[6] – que viveu com Maria Auxiliadora no exílio até o suicídio dela, em 1976. A partir dos relatos de Espinosa e Guarany, bem como da documentação sobre a morte de Chael Schreier, fotografias de identificação da passagem dos militantes pela prisão e trechos de depoimentos de Maria Auxiliadora no exílio, a diretora busca reconstituir a violência sobre esses corpos.

Pastor Claudio (2017), de Beth Formaggini, como a sinopse indica, “propõe um encontro histórico entre duas figuras pessoalmente antagônicas: o bispo evangélico Cláudio Guerra, responsável por assassinar e incinerar os opositores à ditadura militar brasileira, e Eduardo Passos, um psicólogo e ativista dos Direitos Humanos”. A diretora se vale de imagens de arquivo projetadas para que o pastor Cláudio possa rememorar as violações sofridas pelos militantes mortos e desaparecidos, além de apresentar trechos da visita do pastor junto a representantes da Comissão Nacional da Verdade na usina de açúcar onde corpos foram incinerados.

Orestes (2015), de Rodrigo Siqueira, traça um paralelo entre a necessidade de uma revisão da Lei da Anistia, uma vez que os crimes da ditadura cometidos por agentes do Estado não foram devidamente[7] julgados e seus responsáveis punidos, simulando um tribunal de acusação e defesa com juristas; e a necessidade de elaboração do luto por sobreviventes de perseguição e tortura. Por meio do psicodrama e de visita aos lugares de memória, Siqueira propõe um processo coletivo de rememoração que implica também a presença dos pais de jovens assassinados pela polícia e que não aceitam o “auto de resistência”[8] como justificativa para essas mortes, questionando a versão dos policiais envolvidos. Assim, o documentário tenta mostrar a passagem da violência da polícia da ditadura transferida hoje para os pobres, sobretudo à juventude negra e periférica.[9]

Cidadão Boilesen (2009), de Chaim Litewski, traça o perfil de Henning Albert Boilesen, empresário dinamarquês radicado no Brasil acusado de ser um dos grandes financiadores da repressão violenta à luta armada contra a ditadura militar.

Numa outra perspectiva, em que as próprias realizadoras estão implicadas diretamente na temática abordada, em Que bom te ver viva (1989), a cineasta Lúcia Murat, vítima de tortura no período da ditadura militar, apresenta uma série de depoimentos de ex-guerrilheiras que, em seus cotidianos, eleaboram sobre os sentidios de levar a vida adiante.[10] Outros filmes vão em busca das memórias que faltam, como Os dias com ele (2013), de Maria Clara Escobar, cujo encontro tardio da diretora com o pai, Carlos Henrique Escobar, ao falar da ausência, traz revelações importantes sobre a tortura por ele sofrida durante a prisão. Diário  de  uma  busca  (2010), de Flavia Castro, procura reconstruir a história de vida e morte de seu pai, Celso Castro, jornalista de esquerda encontrado morto no apartamento de um ex-oficial nazista; e o mais recente Fico te devendo uma carta sobre o Brasil (2019), de Carol Benjamin, que envolve três gerações de uma família atingida pela ditadura militar brasileira. A partir da recusa do pai, César Benjamin, militante preso com apenas 17 anos, a falar sobre esse período, a diretora vai em busca de depoimentos de quem conviveu com ele no exílio e, junto a material de arquivo e registros da luta incansável da avó, Iramaya Benjamin, pela liberdade do filho, procura quebrar o silêncio num compromisso pessoal com a memória.

Duas importantes questões que marcam o cinema sobre a ditadura militar são a censura e o exílio. Países como Chile e Argentina tiveram boa parte dos cineastas exilados. No Brasil, Glauber Rocha foi uma ausência marcante, mas a maior parte dos cineastas permaneceu no país. Como ressalta Sérgio Muniz, até 1968, havia um clima de esperança, de que a situação não fosse se prolongar. E então, com o AI-5, tudo mudou. A partir daí, instaurou-se uma autocensura que, por um lado, minou uma parte das possibilidades de produção cinematográfica e, por outro, provocou uma série de metáforas e recursos expressivos que pudessem, de certa forma, driblar a censura.

É nesse contexto[11] que Sérgio Muniz realiza Você também pode dar um presunto legal. O filme, realizado em 1973, junto à Caravana Farkas, passou 33 anos escondido. Foi rodado e revelado clandestinamente em 1970, em São Paulo, montado em 1973[12] e exibido no Brasil apenas em 2006. Através de imagens de arquivo, encenações teatrais, textos e recortes de jornal, trata do Esquadrão da Morte e dos métodos difundidos difundidos pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury. Algumas das imagens, particularmente aquela em que Fleury é condecorado, tem ainda hoje seu cinegrafista desconhecido, por razões de segurança. Trata-se de um dos primeiros documentários brasileiros a tratar do tema da ditadura.

Nesse escopo de filmes raros, é fundamental mencionar o trabalho de João Silvério Trevisan. Em 1969, o diretor realizou clandestinamente o curta-metragem Contestação, que trata de movimentos de resistência e luta popular em diversas partes do mundo. Considerado por Trevisan como um “filme de guerrilha”, é uma colagem de imagens de jornais, impressos e televisivos que trazem imagens de confrontos de jovens com a polícia de diversos países, contextualizando o auge do período da contracultura mundial.

Luiz Alberto Sanz foi preso e torturado e, depois, no exílio, realizou o filme Não é hora de chorar, junto ao cineasta chileno Pedro Chaskel, em 1971. No documentário de entrevistas, conhecemos a história e a experiência da tortura de cinco militantes, recém libertados após o sequestro do embaixador da Suíça. Dentre eles está Maria Auxiliadora Lara Barcelos, que anos depois se torna objeto de investigação do filme Retratos de Identificação, já mencionado. Trata-se de um filme de denúncia, pois, naquele momento, pouco se sabia sobre as violações dos direitos humanos que ocorriam no Brasil sob o regime militar.

Após essa sequência de filmes, é importante ressaltar o caráter histórico das produções, como marca não apenas da resistência, mas das dificuldades de se fazer cinema no contexto da ditadura militar. O cineasta chileno Patricio Guzmán chama a atenção para o fato de que a América Latina é um dos continentes em que se perdem, anualmente, mais negativos cinematográficos.

No fim dos anos 1970 e início dos anos 1980, a produção se intensifica, motivada pela abertura política, pelas greves de 1979 e pelo movimento sindical. Nesse espectro, recomendamos Braços cruzados máquinas paradas (1979). Realizado por Roberto Gervitz e Sérgio Toledo, o documentário registrou as greves dos metalúrgicos e a eleição para o sindicato da categoria em São Paulo, em 1978. ABC da greve, de Leon Hirszman (1979/1990), acompanha a primeira greve geral após o AI-5, em que mais de 180 mil metalúrgicos interromperam a produção. O movimento operário ganha força no ABC paulista, e nesse contexto é realizado também Linha de Montagem (Renato Tapajós, 1981), fortalecendo o vínculo entre o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema e o cinema documentário. Destaca-se, ainda, Greve (1979), de João Batista de Andrade, reportando o mesmo contexto.[13] Evidencia-se aí, nesse novo momento da política, a tomada de posição de cineastas brasileiros.

Importante ressaltar que vários operários foram vítimas de perseguição e tortura, como é o caso emblemático do envolvimento da Volkswagen em denunciar para o regime militar  os funcionários que julgava subversivos. Esse sistema de vigilância, tipicamente dos regimes totalitários,[14] serviu para perseguir aqueles que lutavam por direitos trabalhistas, como dá a ver o documentário Cúmplices? – A Volkswagen e a Ditadura Militar no Brasil, da TV pública alemã DW (Deutsche Welle), com correspondência no Brasil.

Esta lista pode ser ampliada, pois trata-se de um primeiro recorte – em processo –, resultado de um esforço de reunir documentários que auxiliem na reflexão em torno de nosso passado autoritário. Além disso, acreditamos e esperamos que os filmes mencionados contribuam para a compreensão da necessidade de reparação histórica e de se garantir que a justiça opere contra a erosão democrática.

Por Glaura Cardoso Vale* e Julia Fagioli**

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* Doutoranda em Comunicação Social pelo PPGCOM/UFMG, doutora em Letras pela FALE/UFMG, bolsista técnica do Centro de Estudos Sobre Justiça de Transição da UFMG, pesquisadora do Mídia e Narrativa (PUC Minas) e Poéticas da Experiência (UFMG).

** Doutora em Comunicação Social pelo PPGCOM/UFMG. Bolsista PNPD da Capes no PPGCOM/UFJF, onde participa do grupo de pesquisa Comunicação, Arte e Literacia Midiática. Ministrou, em 2021, o minicurso Documentário, Memória e as Ditaduras militares.

Referências:

LEANDRO, Anita. Os acervos da ditadura na mesa de montagem. LOGOS 45, v.23, n.2, p. 103-116, 2º sem. 2016.

______. Você também pode dar um presunto legal: um filme clandestino sobre o esquadrão da morte. In: AGUIAR, Carolina Amaral de [et al.]. Cinema: estética, política e dimensões da memória. Porto Alegre: Sulina, 2019.

MACHADO, Patrícia. Imagens que faltam, imagens que restam: a tortura em Cabra marcado para morrer. Significação, v.42, nº44, p. 271-293, 2015.


[1] Os arquivos da ditadura passaram a ter seu acesso público a partir de 2005, mas o sigilo de parte desse conteúdo só foi possível de ser quebrado pouco mais de uma década depois, quando a Comissão Nacional da Verdade, instituída em 16 de maio de 2012, teve acesso à documentação existente.
[2] Informado  pelo  canal do filme no youtube: Índio Cidadão.

[3] O tema foi tratado no artigo do Democratizando “Sexualidades dissidentes na ditadura militar brasileira: breve histórico da repressão e resistência do movimento LGBT – CJT – Centro de Estudos sobre Justiça de Transição”, escrito por Ester Wagner Siqueira, Geovane Campos Alves e Raissa Michaela Pereira Costa e Silva.

[4] Para chegarmos a esse conjunto de documentários sobre a questão LGBTQI+, contamos com a colaboração de Bruno Hilário, programador e gerente de cinema do Cine Humberto Mauro/Palácio das Artes. Vale conferir, ainda, a série produzida pela TV USP, em 2018, que mostra a luta pioneira de LGBTs contra a repressão na ditadura.

[5] Na dissertação, Formas cinematográficas de rememoração da ditadura militar pelas mulheres: uma análise do filme Retratos de identificação (2019), de Letícia Marotta, sob orientação de Roberta Veiga e Anna Karina Bartolomeu, a pesquisadora apresenta um levantamento quantitativo significante  de documentários que abordam a temática da ditadura militar a partir da abertura dos arquivos com foco no interesse particular de cineastas mulheres pelo tema.  Cf. Capítulo: Entre o passado e o presente: a abertura da história pelo cinema de mulheres”, p. 40-46.

[6] Reinaldo Guarany participa ainda do documentário Setenta (2013), de Emilia Silveira, sobre (e com) os presos políticos que foram trocados pelo embaixador suiço, Giovanni Enrico, sequestrado em 07 de dezembro de 1970, no Rio de Janeiro, pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).

[7] O Democratizando publicou o artigo “A decisão condenatória de Carlinhos Metralha, ex-agente da Ditadura Militar Brasileira: um precedente histórico para garantia da Justiça de Transição” que discute a primeira condenação de um réu, em âmbito penal, por ter atuado na perseguição de opositores políticos durante a ditadura militar brasileira (1964-1985) ao conduzir o sequestro do ex-fuzileiro naval Edgar de Aquino Duarte em 1971.

[8] O documentário AUTO DE RESISTÊNCIA (2018), de Natasha Neri e Lula Carvalho, procura evidenciar esse debate. Trata-se de “um acompanhamento preciso dos casos de homicídios cometidos pela Polícia Militar do Rio de Janeiro classificados como ‘autos de resistência’, isto é, legítima defesa. Durante a tramitação dessas ocorrências na justiça, fica evidente o padrão de imprudência da corporação em relação a elas: investigações esdrúxulas e perícias defeituosas, nas quais 98% dos inquéritos são arquivados”, conforme a sinopse descreve.

[9] Sobre um tema caro aos direitos humanos, a questão do encarceramento em massa, indicamos dois documentários contundentes para pensar abusos e violação de direitos: Juízo (2008), de Maria Augusta Ramos, mesma diretora de O processo (2018), procura abordar a temática do ponto de vista da trajetória de jovens infratores no sistema prisional e O prisioneiro da grade de ferro – Auto-retratos (2003), de Paulo Sacramento, em que o sistema carcerário brasileiro pôde ser visto de dentro, um ano antes da desativação da Casa de Detenção do Carandiru (São Paulo). No documentário, os detentos aprendem a utilizar câmeras de vídeo e documentam o cotidiano do que foi o maior presídio da América Latina.

[10] Sobre essa abordagem, recomendamos o documentário Repare Bem (2013), realizado pela cineasta e atriz portuguesa Maria de Medeiros, que conta a história de três gerações de mulheres que sofreram o impacto da ditadura em suas vidas.

[11] Sobre a produção marginal desse período, é importante mencionar a pesquisa de Naara Fontelele, acerca das “Formas críticas, engajadas e experimentais no cinema brasileiro”. Parte dela está disponível no Catálogo do 19⁰ Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte.

[12] O filme foi montado entre Paris e Roma e finalizado em Havana, com o apoio do ICAIC (Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica). Importante ressaltar que o instituto ofereceu um suporte fundamental a cineastas e realizadores brasileiros e de outros países latinoamericanos vivendo sob ditaduras militares.

[13] Anos antes, João Batista de Andrade  havia realizado Liberdade de Imprensa (1967) que aborda de aspectos ideológicos a poder econômico, capital estrangeiro e censura política no Brasil de 1964 a 67. Conta com imagens dos principais acontecimentos alternadas por entrevistas com especialistas e políticos.

[14] Cf. As origens do totalitarismo (1951), de Hannah Arendt.

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